"Hoje estás sozinho?" pergunta-me o porteiro enquanto me cumprimenta.
"Sim, mas espero levar daqui uma miúda comigo!" respondi-lhe em brincadeira.
Naquela casa nunca estou verdadeiramente sozinho. É um ponto de encontro de velhos conhecidos, amigos da noite e engates esquecidos. Subo as escadas para o piso de cima. É um local calmo, com vista para a pista, ideal para conversar e conviver um pouco. Vou até ao bar.
"É o costume?" pergunta-me a menina.
Pois será. Serve-me um Martini rosso com pouco gelo que pretendo acompanhar com um relaxante cigarro. A zona de fumo é no último piso. Já fora um espaço de sofás mas agora inclui inusitados matrecos e uma mesa de bilhar.
Avisto uma jovem sozinha, de taco na mão, jogando bilhar. No resto do espaço agrupam-se em casais rostos conhecidos e algumas figuras da noite do Porto.
Enquanto fumo o cigarro, aprecio a solitária jogadora em sucessivas tacadas.
Parecendo concentrada, não desvia o olhar. Joga a todas as bolas, desfilando-se elegante em torno do bilhar. Tem um sensual vestido verde, revelando as suas pernas de cada vez que se dobra sobre a mesa.Termino o cigarro e aproximo-me. Observo, atento, esperando que se desconcentre.
Na última bola, falha desastrosamente. Seria uma tacada fácil, sem espaço para errar. Mas foi o pretexto para desbloquear.
Desiste do jogo e convida-me a participar.
Chama-se Ana e é de Coimbra. Aguarda sozinha duas amigas que veio visitar. Habituada a jogar, decide praticar algumas tacadas até as amigas chegarem.
Aceito o convite e pego num taco. Não o fazia há vários anos, desde os tempos de escola em que preenchia os tempos livres no salão local. Conhecia uns truques, mas neste jogo pouco me interessava ganhar.
Ana movia-se de forma sensual e planeada, quase coreografada. Acertava todas as tacadas e de cada vez que se dobrava o meu olhar desgovernava-se, deixando-me perdido, na lua.
"É a tua vez..." fez-me regressar.
Na mesa restavam poucas bolas para a Ana jogar, e eu ía ainda começar. Escolhendo a jogada mais fácil, coloco o giz e dou a tacada.
Não entra. O taco escorrega e a branca nem toca na 7.
"Pegaste mal no taco. Joga novamente que eu vou-te ensinar"
Ana transmite experiência. De cabelos ruivos, rosto invulgar e unhas vermelhas, parecia-me uma mulher sabida, com quem gostaria de aprender.
Dobro-me sobre a mesa para uma nova investida. Ana posiciona-se a meu lado, colocando as suas mãos sobre as minhas. Reajo ao toque, virando-me e sorrindo. Serena, corrige o taco e dá-me as indicações. Juntos, damos a tacada.
"Muito bem" encoraja-me enquanto mantém as suas mãos sobre as minhas.
Ana tem a pele branca e macia. As suas mãos nas minhas catapultavam o calor que me percorria pelos braços até ao tronco, deixando-me com suores estranhos e calores.
Uma vista sobre o bilhar e preparo a jogada. Faço-me à 3. Será mais exigente, necessitando de uma tabela para pontuar. Ana volta a ajudar.
"Imagina uma linha... baixa-te e faz pontaria" diz-me junto ao ouvido.
Fazendo-me hesitante, aproxima o seu rosto do meu e ajuda-me na pontaria. "um pouco mais para a direita..."
Tão próxima, permitiu-me sentir o seu perfume, reparar na perfeição do seu rosto e na beleza dos seus olhos.
Com a dose certa de pontaria e força, consigo uma tacada perfeita. "Muito bem!" diz-me com um inesperado beijo no rosto.
Paralisado, olho-a admirado. Os seus lábios pintados brilhavam sob as poucas luzes do espaço.
Aquele baton deveria ter um sabor, e eu queria saber qual!
Atrevido, beijei-a sem resistência. De toques delicados fizemos os nossos breves beijos, interrompidos pelo toque do seu telemóvel. Marisa e Susana, as suas amigas, depararam-se com um imprevisto e não poderiam estar com ela naquela noite.
Sozinha, ofereço-me para companhia. Arrumámos os tacos e convidei-a para um passeio pela cidade que Ana desconhecia.
Na saída despeço-me do porteiro com aquele ar de "who's the boss?" e levo-a para o carro.
Percorremos a Foz até ao Castelo do Queijo. Mostrei-lhe a o Parque da Cidade e a Casa da Música. No centro, vimos o Palácio, a Torre dos Clérigos e passamos por Cedofeita e Santa Catarina. A cidade, deserta, parecia adormecida. Descemos pela Estação de S. Bento em direcção à Ribeira, pela marginal que nos leva de volta ao Twin's. No Passeio Alegre, com vista sobre o rio, estaciono o carro junto a outros, de vidros embaciados.
Solto o cinto, escolho uma música e ponho-me à vontade. Aproximando-se a despedida, beijámo-nos uma última vez. Prolongado, mas parecendo curto, um último beijo despediu os meus lábios dos seus.
| Escrito por Engenheiro | 3 comentário(s) |
